Noites no sítio — lampejos dispersos, inquietos. Três irmãos, pés no chão, a pele grudada ao quintal. Vagalumes capturados por instantes, soltos depois, como se o mundo se apagasse e reacendesse nas pequenas mãos. Nada durava mais do que deveria. Rostos quentes, risos presos nos dentes, o quintal inteiro respirava junto deles.
Gatão — sombra que ninguém queria nomear. Ele surgia sem lógica, olhos que queimavam qualquer plano. Era peso, presença que empurrava o quintal para o outro lado, o lado das coisas fora de lugar. O mais velho dizia: “Hoje resolve.” Mas a frase ficava ali, parada, engolida por gravetos que tentavam parecer armas. Lençóis jogados no ar, transformados em barracas que nunca protegiam nada. Dentro delas, palavras baixas, pactos frágeis. Era sempre assim.
Infância germina desordens. Cresce errado, entra por frestas, toma o que não é dela. As noites escavam no peito o que nem se sabia que estava lá. Figuras que não pedem licença, ocupam os espaços e ficam. Escuro vira o dono, não dá escolha. Um olha pro outro, todos sabem, mas ninguém diz. Esperam. Esperar é tudo que sabem fazer.
De manhã, o quintal voltava ao tamanho errado. Vagalumes apagados nos vidros, gravetos jogados na terra, nada fazia sentido — como sempre. Gatão existia, claro que existia, mas não era mais a coisa enorme que carregavam nas costas. Estava ali, entre os galhos, respirando com o quintal. Nada mais.
Os irmãos cresciam carregando noites nos ombros. Manhãs vinham, riam deles, apagavam o peso, mas deixavam o vazio. Porque era isso que sobrava: vazio. E esperavam outra noite, de novo, como se o escuro fosse explicar o que ninguém entendia. Como se fosse o bastante. Nunca era.
Escuridão distorcia o mundo ao redor, enquanto luz reorganizava, mas jamais desfazia o que a sombra havia prometido.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.